Domingos Gouveia:
cara do pai,
afeto dos irmãos 

Domingos Gouveia:
cara do pai,
afeto dos irmãos 

“Amigo, quem é seu pai?”

Já se passavam 50 anos desde a morte de seu pai quando Minga, apelido de Domingos Gouveia, ouviu a pergunta de um senhor mais velho, enquanto esperava sua porção de torresmo em um barzinho de Ponte Nova (MG), sua cidade natal.

 “Você é filho de Adair, né? Ó, na hora que você entrou ali eu falei: nossa senhora, olha Adair passando aí”.

A semelhança com o pai não é apenas física: Minga é Gerente de Logística e, há 35 anos, começou seu primeiro emprego na mesma empresa em que seu pai também já trabalhou. No antigo livro de empregados, o nome de Adair aparece logo depois do fundador da empresa, sendo o segundo funcionário oficial.

Domingos tinha apenas 5 anos quando seu pai faleceu em uma acidente, enquanto dirigia para vender produtos de uma fábrica de botinas, seu emprego na época. Diziam que cochilou no volante da Kombi, mas ninguém sabia ao certo o que realmente aconteceu. Para o menino, o motivo foi um eufemismo comumente explicado às crianças: Deus chamou Adair porque precisava dele no céu.

Sexto filho de sete irmãos, não faltaram figuras paternas na vida dele. O avô, um dos homens “durões” da roça, fazia o papel de autoridade masculina. O carinho de pai não veio dele, mas os irmãos deram conta do recado. A primeira chuteira de futebol, paixão que o acompanha desde cedo, foi presente do irmão mais velho e o marcou para toda a vida.

A mãe, Eny Gouveia, segurou as pontas da família, mesmo sozinha com sete filhos e com o peso do julgamento por ser viúva na época – um destino que ela não escolheu. Nos aniversários de Domingos, não tinha presente. O primeiro do qual se lembra foi um bode, já bem doente, que recebeu do avô. Ele e o irmão mais novo aceitaram a missão e cuidaram do animal, que sobreviveu, engordou e foi vendido pelo avô. A expectativa dos meninos era comprar uma bicicleta com o dinheiro. A mãe, no entanto, achou melhor comprar roupas novas.

Além de camisetas e bermudas, outros itens também eram escassos. Quando faltou café em casa, Eny convenceu a família de que o chá era muito bom pra saúde e que eles deveriam substituir. Eventualmente, o dinheiro voltou, assim como o pó para fazer, que deve ser a segunda bebida preferida dos mineiros – a primeira provavelmente é a cachaça, algo que não traz as melhores lembranças do pai.

Ele sempre soube que o pai sóbrio era uma pessoa excelente, mas tinha problemas com a bebida. Mas seus “rompantes” nunca chegaram aos seus filhos. Olhando para trás, Minga não vê grandes momentos em que a saudade tomou conta de si. A mãe sempre conversou abertamente com eles sobre o pai e isso era suficiente para o menino. 

Domingos não sabe dizer exatamente o que perdeu a partir do acidente de seu pai. Talvez o contato com a família paterna, lembranças mais vívidas do Seu Adair, ou uma vida financeira mais confortável na infância. Mas sabe que ganhou muito durante a vida e que teve a sorte de crescer em uma família que sempre se apoiou.